Dez minutos se passaram e a voz grave de Renato Russo soou novamente no quarto escuro quase uma hora depois da marcada inicialmente. Lรบcia respirou fundo soltando um gemido resignado e saiu de debaixo das cobertas e foi se arrastando em direรงรฃo ao banheiro, desligando o despertador do celular no caminho.

Ficou sentada olhando para o nada no vaso sanitรกrio por um tempo indeterminado atรฉ que, por fim, resolveu tomar um banho gelado para despertar de vez. Quando terminou de se aprontar, pegou o celular e rugiu raivosamente. Ela nรฃo estava somente atrasada, mas tinha perdido as trรชs primeiras aulas daquela manhรฃ. Aulas que nรฃo poderia mais perder. Lรก se iam horas de conversa chata com o professor tradicionalรญssimo de Psiconeurologia para retirar aquelas ausรชncias, planejou jรก se sentindo entediada.
Com a mochila quase caindo do ombro e apertando desesperadamente o botรฃo do tรฉrreo do elevador, ela soltou uma maldiรงรฃo silenciosa quando a porta ao lado da sua abriu. Ela nรฃo estava em um bom momento para conversar, muito menos com o simpaticรญssimo vizinho atencioso demais que ela tinha a sorte de ter.
— Atrasada mais uma vez, Luci? — Lรบcia revirou os olhos de cabeรงa baixa e somente dirigiu um sorriso forรงado para ele. — Deixe me ver: ficou assistindo Supernatural atรฉ tarde, nรฃo foi?
— Eles jรก estรฃo na “trilhonรฉsima” temporada e eu estagnada na 10ยช — disse com indiferenรงa olhando-o de esguelha. Ela nรฃo precisa olha-lo para saber que usava um terno preto Armani perfeitamente alinhado ao corpo e bem cortado com uma gravata tambรฉm preta e uma camisa imaculadamente branca. A barba feita, os cabelos cor de cobre penteados e sem nenhum frizz (de dar inveja a qualquer mulher, pensou Lรบcia, passando a mรฃo nos prรณprios cabelos). — Preciso me atualizar.
— No meio do semestre? — Ele disse sorrindo.
Antes que ela pudesse dizer umas coisas desagradรกveis que estava pensando para aquele Marcos Bisbilhoteiro do 301, o elevador chegou no andar deles e abriu as portas. Ela entrou seguida por ele e logo colocou os fones de ouvido. Marcos falou mais alguma coisa com ela, mas como Lรบcia estava muito ocupada ouvindo John Mayer nรฃo se deu ao trabalho de entender o que ele estava falando. Ela nem ao menos estava educadamente disposta a ouvi-lo. Pensou sorrindo que a distinta Luciana Albuquerque, senhora sua mรฃe, ficaria extremamente decepcionada com a atitude nem um pouco cortรชs da filha, a ponto de ouvir os gracejos sussurrados da mรฃe:
— Lรบcia Maria tire jรก este fone, finja-se de educada e dรช atenรงรฃo ao seu vizinho — mas, mesmo assim, Lรบcia nรฃo estava interessada. Tudo em que ela pensava era a conversa que teria que ter com o professor.
Quando chegaram ao tรฉrreo, Lรบcia saiu em disparada pelo saguรฃo, passou correndo pelo estacionamento e pelo portรฃo de acesso as cinco torres do Condomรญnio Porto do Mangue, um dos mais luxuosos complexos de apartamentos da cidade. Ela nรฃo se importava com isso, poderia muito bem morar em um dos quartos da residรชncia da Universidade, mas seu pai fez questรฃo de compra-lo assim que ela passou em Psicologia. Ela nรฃo seria louca de recusar. A piscina era maravilhosa.
— Valeu, Seu Roberto — falou quando passou correndo pela guarita do porteiro, Seu Roberto. Ele jรก estava acostumado com os atrasos rotineiros de Lรบcia, entรฃo jรก sabia que ela nรฃo teria tempo para conversar.
O sol brilhante do meio da manhรฃ lanรงava seus mais raivosos raios no corpo de Lรบcia, fazendo seus braรงos nus queimarem e sua visรฃo encandear. Chegou no ponto de รดnibus esbaforida pela pequena corrida. Apesar de ser somente duas ruas que separavam o seu prรฉdio e o local de parada do รดnibus, Lรบcia era uma sedentรกria assumida e convicta. Entรฃo essa pequena corrida a deixava esgotada.
— Vem, eu te deixo lรก — a voz calma, grave e um pouco cantarolada que deixava Lรบcia com mais raiva ainda soou de dentro de um Audi A3 preto 2015.
Lรบcia olhou pela estrada na esperanรงa de ver o รดnibus que a levaria para a Universidade, mas sรณ o que viu foi um monte de carros apitando para que Marcos saรญsse do caminho. Resignada e com a perspectiva de ter quinze minutos, em mรฉdia, de conversa fiada com o seu vizinho embargando-lhe o estomago vazio, abriu a porta do passageiro, jogou a mochila no banco de trรกs e sentou com seu mais belo sorriso falso estampado no rosto.
Marcos Augusto Oliveira e Costa, um dos melhores advogados jรบnior da cidade, nรฃo era uma pessoa ruim, apenas prestativa demais, na opiniรฃo de Lรบcia. Ela nรฃo conseguia ter muita paciรชncia com ele e sempre era uma chata e antipรกtica quando estava com ele. Parecia que o coitado era o saco onde Lรบcia despejava seus insultos e mau criaรงรฃo que nรฃo tinha coragem de dizer para os outros.
E, como previsto, foram quinze minutos de ladainha para saber como estavam as aulas, se ela estava gostando do conteรบdo, dos professores, dos coleguinhas, bla, bla, bla... Deus, parece que eu estou conversando com a minha avรณ e nรฃo com um cara apenas cinco anos mais velho que eu, pensou enfadada daquela conversa de velho. Quase dando graรงas aos cรฉus avistou a entrada do campus
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